Jefferson Peixoto
       

              UM DIRCEU FORA DO CASULO

            

             O criativo e “imortal” Dias Gomes presenteou este país com umas das mais célebres histórias de nossa teledramaturgia: O Bem Amado. Embora eu fosse ainda um bebê à época. Foi novela, depois virou seriado, mas sempre em evidência, sempre cativando e intrigando o telespectador. Dentre muitos personagens marcantes, o interpretado por Emiliano Queiroz me vem à cabeça neste momento: Dirceu Borboleta. Assessor do prefeito corrupto e populista Odorico Paraguaçu. Um pobre diabo de fala complicada, entre o fanho e o gago, que sofria ao tentar se impor diante dos outros. É fácil saber por que Dirceu Borboleta me veio à cabeça. Em um momento desagradável da politicalha nacional, quando meu xará Roberto Jefferson resolveu chutar o balde e encharcar logo todo mundo, já que ele já estava encharcado, o nome do ministro da Casa Civil veio à tona mais uma vez, José Dirceu, envolvido em um escândalo de corrupção.

             Sempre que a coisa fede no governo, o nome de José Dirceu aparece. Ao final ele sempre sai ileso. Foi assim no caso Waldomiro. Quem não lembra? Agora é o caso do “mensalão”. Em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, Roberto Jefferson disse que Dirceu foi um dos criadores deste fundo destinado a comprar votos de deputados. Diferente do Dirceu de Dias Gomes, o petista sabe se impor como ninguém, tem fala firme e convincente, olhar severo e gestos de força, como punhos cerrados. José Dirceu parece estar protegido por um casulo chamado Lula, instransponível, ninguém pode atingi-lo, o presidente não permite. Dirceu Casulo.

Mas dessa vez o casulo fora rompido, Roberto Jefferson foi enfático em seu depoimento, dizendo para o ministro da casa civil renunciar para não transformar o presidente em réu. Dirceu saiu do casulo, ainda que em seu discurso de renúncia do ministério quisesse transparecer uma autoridade, ética e moral, que já não convencem mais e se torna refém das suas próprias sacanagens. “Eu saio de cabeça erguida e com a consciência tranqüila...” Deus do céu, quanto cinismo! É assumir a culpa de algo menor para não ter que assumi-la pelo pecado maior. Mas, será que um dia saberemos... ou mais uma vez o tráfico de influência abafará todo o vapor de cebola podre que vem da bela Brasília? Os predadores estão prontos para devorar a mais nova borboleta...

O fim do Dirceu de Dias Gomes eu confesso que não lembro, tenho em minhas lembranças que era uma figura com ares de inocência, quase infantil, ainda que não fosse um anjinho. E o Dirceu de Lula? Infantil, sabemos que não é. Anjinho também não. E inocente, alguém acredita que seja?

 

Jefferson Peixoto é escritor e jornalista.

Laureado pela Academia Brasileira de Letras.

e-mail: jefpeixoto@yahoo.com.br



Escrito por Jefferson Peixoto às 16h06
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