Jefferson Peixoto

 

Uma idéia tola,

um pretexto qualquer

 

  

Eu só queria o silêncio. Naquele dia impetuoso, que ousava derrubar-me a qualquer custo, eu só queria o silêncio. Não, não, não só o silêncio, queria o silêncio e nenhuma luz a perturbar-me a falsa impressão de tranqüilidade de meu empoeirado quarto escuro. Queria fechar meus olhos e sentir cérebro e coração pararem numa simultaneidade rítmica, sem que isso fosse uma alteração fatal. Queria o direito de parar a vida e só retorná-la quando apto estivesse para vivê-la. Umas férias vitais, literalmente. O corpo cansado, a mente a repetir idéias e desejos insensatos sem nem mais diferenciar o que anda a pensar, e o coração, ah! Esse já num desmantelo só, sendo bombardeado por uma intransigente cegueira pós-juvenil e pela unilateralidade que compõe o egoísmo. O meu egoísmo e o dos outros.

            Um desprezo abismal pelas coisas, um suspiro constante de “nossa! Ainda falta tudo isso!” Advogados, sinfonias de call centers, juros, custas, ingenuidades, verdades que para alguns sempre serão mentiras, a incapacidade da prova e o estraçalhar do direito de ser inocente até que alguém prove o contrário, a ausência do condicionador de ar, o aluguel, o carro, o pneu do carro, o cooler, a placa mãe – “já era, meu chapa!” – a pia entupida, a roupa suja, uma dor de dente que carrega de mãos dadas uma dor de ouvido e uma garganta que parece estar envolvida com uma coroa de espinhos, um amor que já não existe mais... Quinze dias sem coração e sem cérebro. Quinze dias sem lembranças e nenhuma, mas nenhumazinha, emoção. E se pudéssemos?

            Quantas vezes nessa vida não desejamos sumir? Pois bem, seria esse o sumiço. E quando voltássemos, a custa de nossa própria vontade, numa programação prévia, como se nosso corpo tivesse um on e off, ou algo espetacularmente do gênero, certamente as coisas estariam do mesmo jeitinho que as deixamos, ou ainda pior, é, certamente ainda bem pior. As pessoas que contam com a gente não mais contariam, os amigos sumiriam e aquele amor, certamente mais circunstancial que qualquer outra coisa, logo se desviaria para outras rotas. Mas, essa é apenas uma idéia tola, um pretexto qualquer para desviar-me de um mundo de ansiedade e ansiosos, de medos e medrosos, oportunidades e oportunistas, de covardes e falsos altruístas. E se alguém aí souber uma fórmula para viver bem, guarde-a para si, no mais, a arrisque num livreco qualquer de auto-ajuda que possa lhe garantir alguns trocados. Deixem-me dormir, com a dura impressão de que amanhã acordarei e terei tudo de novo. Que meu polivitamínico e meu Taff Man-E me deixem preparado para isso!

 

 

Jefferson Peixoto é escritor e jornalista.

Laureado pela Academia Brasileira de Letras.

e-mail: jefpeixoto@hotmail.com

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Escrito por Jefferson Peixoto às 11h35
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